s.
para onde foste para nos deixares a vaguear pelo teu rasto. azul. se não eras o mar. se não eras a terra. se não eras a noite. nem a mágoa mordida no lábio. se não sabias dizer-me as coisas mais bonitas que um homem de casaco molhado. quer ouvir. ao andar pela rua a escolher nomes para cada canto. para morar. se não eras chuva a castigar-me as dobras e os vincos. da roupa. negra. de tanta noite.
como te posso dizer agora. se não eras a chuva. se não eras o vento. nem o pó. nem as pedras no caminho.
que sempre andámos pelas mesmas estradas. e cantámos as mesmas músicas. no som do mesmo rádio de carros diferentes. e sentámo-nos nas mesmas cadeiras e bebemos das mesmas chávenas. os cafés envenenados de cafeína a morder. o lábio. e a mágoa. que olhámos com a mesma distância as luzes da cidade encaixada num só abraço. e beijámos as mesmas faces com o mesmo amor. o meu. seco. o teu. ainda mais seco. nunca chovia de propósito para nós. nunca choveu.
e mesmo assim. não soubemos olhar. o tremor de cada queixo.
como te posso ouvir agora. se não eras o frio. nem a conversa deitada fora na rua. nem as pessoas na varanda a verem os estranhos a passar. nem o ácido da confusão dos outros a escorrer pelas paredes. e a cair para o chão. que nunca cedia. até hoje. quando te foste em terra. e madeira. a falar-me do que fizeste um dia inteiro. a sonhar com as mãos. e a tremer a voz. para a frente e para trás. como um baloiço no olhar. da boca. como te posso ver. agora. se já não existes como eu. que falo e que canto. e que me deito e que acordo. e que choro. e que me alimento com as mãos. os beijos que me dão. e que grito. que nunca soube. quando te deveria dizer. amo-te. ou gosto de ti. ou não faças isso. ou vamos jogar à bola. ou grande jogo do benfica. ou. dá-me cá um abraço seu tolo.
já não moras aqui. senão eu saberia o número da tua porta. e de vez em quando podia tocar à tua campainha e chamar-te pelo. nome. e trazer-te a meu lado. no lado do teu coração. que te levou de mim.
ainda não sei.
s. saudade.
para o meu mano mais novo. pedro. 19.08.1984. reticências. 27.11.2006
para onde foste para nos deixares a vaguear pelo teu rasto. azul. se não eras o mar. se não eras a terra. se não eras a noite. nem a mágoa mordida no lábio. se não sabias dizer-me as coisas mais bonitas que um homem de casaco molhado. quer ouvir. ao andar pela rua a escolher nomes para cada canto. para morar. se não eras chuva a castigar-me as dobras e os vincos. da roupa. negra. de tanta noite.
como te posso dizer agora. se não eras a chuva. se não eras o vento. nem o pó. nem as pedras no caminho.
que sempre andámos pelas mesmas estradas. e cantámos as mesmas músicas. no som do mesmo rádio de carros diferentes. e sentámo-nos nas mesmas cadeiras e bebemos das mesmas chávenas. os cafés envenenados de cafeína a morder. o lábio. e a mágoa. que olhámos com a mesma distância as luzes da cidade encaixada num só abraço. e beijámos as mesmas faces com o mesmo amor. o meu. seco. o teu. ainda mais seco. nunca chovia de propósito para nós. nunca choveu.
e mesmo assim. não soubemos olhar. o tremor de cada queixo.
como te posso ouvir agora. se não eras o frio. nem a conversa deitada fora na rua. nem as pessoas na varanda a verem os estranhos a passar. nem o ácido da confusão dos outros a escorrer pelas paredes. e a cair para o chão. que nunca cedia. até hoje. quando te foste em terra. e madeira. a falar-me do que fizeste um dia inteiro. a sonhar com as mãos. e a tremer a voz. para a frente e para trás. como um baloiço no olhar. da boca. como te posso ver. agora. se já não existes como eu. que falo e que canto. e que me deito e que acordo. e que choro. e que me alimento com as mãos. os beijos que me dão. e que grito. que nunca soube. quando te deveria dizer. amo-te. ou gosto de ti. ou não faças isso. ou vamos jogar à bola. ou grande jogo do benfica. ou. dá-me cá um abraço seu tolo.
já não moras aqui. senão eu saberia o número da tua porta. e de vez em quando podia tocar à tua campainha e chamar-te pelo. nome. e trazer-te a meu lado. no lado do teu coração. que te levou de mim.
ainda não sei.
s. saudade.
para o meu mano mais novo. pedro. 19.08.1984. reticências. 27.11.2006

7 Comments:
... não sei escrever... não sei que dizer quando a vida prega partidas destas e deixa o vazio por companhia... Força João...
João:
"Ninguém morre só a sua morte, é um pouco de nós todos que se vai!"
Não sei dizer as palavras que sinto mas sei o que sentes, sei o que queres dizer e não podes...
As palavras que te ficam por dizer mais uma vez!
Aquele abraço grande e forte onde sempre me abrigaste...agora para ti.
b.
Um grande abraço, João.
um abraço. sem mais!
Infelizmente sei o que queres dizer e o que estás a sentir.... Perdi a minha irma quase na mesma altura e parece que ada vez que o tempo passa a dor parece aumentar....
muito bonito e profundamente triste..
as palavras perdem a força quando há saudades eternas assim.
....
nunca sabemos ao certo quando dizer determinadas coisas. mas há quem ouça o que não é dito. e saiba.
....
bjs
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