Quinta-feira, Novembro 30, 2006

r.

recuperei. engoli insectos latentes e cuspi a noite. onde dormia. para dentro de um copo. em cima da mesa. de onde repousavas doente. as mãos.

estávamos gelados por dentro do invólucro que se fecha sobre o peito. como um silêncio trancado. e perante a impossibilidade de trocar a cor. ao líquido esmorecido dentro do copo. transportei metades de tudo o que se pode dividir.

a lista é a seguinte.

mãos. dedos. e pés a tremer debaixo das mantas. lençóis dobrados. e direitos a fazer a cama. insolente e rebelde. almofadas amordançando as cabeças. e as cabeças. divididas a pensar. no amor. o amor. porque se divide. e se dá. em todos os vasos. onde existe terra e braços. e línguas. a brotar vozes e palavras para esquecer. zangas. muitas. sorrisos. alguns dentro das zangas. pássaros a salpicar os céus. dividem os bandos. nuvens. coleccionando a chuva. dividem as gotas. e água. porque existe. canções. lá longe de uma janela aberta. memórias. dividem-se com os cabelos negros. transformando-se em brancos. sêmem. e suor. porque se subtraem do corpo. quando este se divide. com outro. abraços com palmadas nas costas e abraços simples e abraços. de amor. o amor. a rasgar papel de carta. o amor a tocar nas rádios. o amor a falar alto na rua e no café. o amor a condizer com a roupa e os sapatos e os olhos. o amor nos livros. o amor a chorar. o sal. carregado e secando as faces. a solidão. em cada canto da sala. em cada sombra. a dormência. dividida por vários membros derivando de uma única. ausência. uma larva dividindo a terra. o sol. entre as folhas das árvores. as àrvores e as folhas entre o sol. e tudo somado. desfaz-se sobre o chão. húmido e queimado. as estradas divididas em duas faixas. e em três faixas. e em lugares para os carros se esvairem no alcatrão. o cheiro a combustível sintetizado dentro dos motores. e as pessoas nos carros. olhando o horizonte. dividido pela penumbra da estrada a alta velocidade. o que não se percebe. a pedra que jaz na berma. a silhueta que acena. a mão e o adeus. dividindo a distância do tempo. que nos afastamos. a saudade que nunca mais acaba dentro do coração que parece uma estrada. sem faixas. sem carros. sem velocidade. com cheiro a combustível do amor. o sangue. a saliva e o mel. em cada boca. e a boca dividida num beijo. e o beijo. dividido em si. e a transparência. reticências.

levámos cansados a confusão dentro de um caixote. para a deitar. no fim do mundo. a esquina que nunca se encontra. a esquina que nunca se esgrime ou se encurta.amanhã.

dou-te um abraço. e regresso.

r. de regresso.