Domingo, Dezembro 24, 2006

t.

tinhas árvores pintadas no jardim da tua casa. o chão cheirava a cinzento da chuva arrastada pela noite. a água engolida em fúria pela terra apagava-lhe o fogo que ardia entre a argila de onde crescem as flores. e o cimento de onde se fazem as conversas que falam de nós.

não sabia como te dizer que o mar tem dentro. todos os amores embalados em caixas. por debaixo das ondas. e que o nosso amor. anda por lá. dentro dele. e não sabe para onde vai. e não sabia como te dizer. que a saudade que trago é talvez. a única coisa que tenho de ti. hoje. e que preciso de escrever-te. para não me esquecer de dizer o teu nome em todas as palavras. que me saem das mãos. tenho as mãos vazias e tu não sabes disso. é um segredo que guardo de ti.

o chão. por onde passo. é um céu de onde crescem as árvores.

o chão. que dorme e que não sabe assobiar. como tu. talvez porque os teus lábios tenham a mesma dureza das pedras. e não saibam abraçar. a voz do teu coração. ou porque me cansaste de viver tantos dias.

t. tinta.

Sexta-feira, Dezembro 01, 2006

s.

para onde foste para nos deixares a vaguear pelo teu rasto. azul. se não eras o mar. se não eras a terra. se não eras a noite. nem a mágoa mordida no lábio. se não sabias dizer-me as coisas mais bonitas que um homem de casaco molhado. quer ouvir. ao andar pela rua a escolher nomes para cada canto. para morar. se não eras chuva a castigar-me as dobras e os vincos. da roupa. negra. de tanta noite.

como te posso dizer agora. se não eras a chuva. se não eras o vento. nem o pó. nem as pedras no caminho.

que sempre andámos pelas mesmas estradas. e cantámos as mesmas músicas. no som do mesmo rádio de carros diferentes. e sentámo-nos nas mesmas cadeiras e bebemos das mesmas chávenas. os cafés envenenados de cafeína a morder. o lábio. e a mágoa. que olhámos com a mesma distância as luzes da cidade encaixada num só abraço. e beijámos as mesmas faces com o mesmo amor. o meu. seco. o teu. ainda mais seco. nunca chovia de propósito para nós. nunca choveu.

e mesmo assim. não soubemos olhar. o tremor de cada queixo.

como te posso ouvir agora. se não eras o frio. nem a conversa deitada fora na rua. nem as pessoas na varanda a verem os estranhos a passar. nem o ácido da confusão dos outros a escorrer pelas paredes. e a cair para o chão. que nunca cedia. até hoje. quando te foste em terra. e madeira. a falar-me do que fizeste um dia inteiro. a sonhar com as mãos. e a tremer a voz. para a frente e para trás. como um baloiço no olhar. da boca. como te posso ver. agora. se já não existes como eu. que falo e que canto. e que me deito e que acordo. e que choro. e que me alimento com as mãos. os beijos que me dão. e que grito. que nunca soube. quando te deveria dizer. amo-te. ou gosto de ti. ou não faças isso. ou vamos jogar à bola. ou grande jogo do benfica. ou. dá-me cá um abraço seu tolo.

já não moras aqui. senão eu saberia o número da tua porta. e de vez em quando podia tocar à tua campainha e chamar-te pelo. nome. e trazer-te a meu lado. no lado do teu coração. que te levou de mim.

ainda não sei.

s. saudade.

para o meu mano mais novo. pedro. 19.08.1984. reticências. 27.11.2006