v.
perguntei-te. se sabias secar feridas. tal qual o sol. faz secar a água nas pedras das ruas. e das varandas. disseste-me que era tarde para falarmos de coisas que obedecem à fé das mãos e das palavras. e viraste-te para o outro lado. onde os morcegos já teciam a escuridão.
assim. deixei-me ficar. a olhar o tecto negro que se compunham por cima do meu corpo. quente. ao lado do teu. a esmorecer na ventania do sono. pensei. como podiam as mãos dedicar-se ao luto de uma ferida e ao trânsito do sangue. parado. à espera. como podiam as palavras terminar a angústia da carne. e do ventre quase vermelho. quase negro. a sussurrar. a demolição do ar no peito. a respirar.
pedi então. que me deixasses olhar-te por dentro a dormir. disseste-me que não se pode espreitar para dentro do corpo. quando este é roubado e diluído num mar. disseste-me. que não se pode ver o que já não existe. o que partiu. o que foi desfeito. o que é salgado e se esvai na água e o que é tocado pela saudade. e pelo amor.
dentro do teu corpo. não existia nada. disseste-me. em voz escrita pelos lábios a falar debaixo do mundo. e a boca a beijar-me a face vermelha. e em afecto contido. as minhas mãos. abriram-se para pegar-te. nas pernas. e as enrolar à volta do meu tronco. solto.
juntos. apagaste a luz daquele quarto. iluminado por nós. e foste morar em mim.
v. de vazio.
perguntei-te. se sabias secar feridas. tal qual o sol. faz secar a água nas pedras das ruas. e das varandas. disseste-me que era tarde para falarmos de coisas que obedecem à fé das mãos e das palavras. e viraste-te para o outro lado. onde os morcegos já teciam a escuridão.
assim. deixei-me ficar. a olhar o tecto negro que se compunham por cima do meu corpo. quente. ao lado do teu. a esmorecer na ventania do sono. pensei. como podiam as mãos dedicar-se ao luto de uma ferida e ao trânsito do sangue. parado. à espera. como podiam as palavras terminar a angústia da carne. e do ventre quase vermelho. quase negro. a sussurrar. a demolição do ar no peito. a respirar.
pedi então. que me deixasses olhar-te por dentro a dormir. disseste-me que não se pode espreitar para dentro do corpo. quando este é roubado e diluído num mar. disseste-me. que não se pode ver o que já não existe. o que partiu. o que foi desfeito. o que é salgado e se esvai na água e o que é tocado pela saudade. e pelo amor.
dentro do teu corpo. não existia nada. disseste-me. em voz escrita pelos lábios a falar debaixo do mundo. e a boca a beijar-me a face vermelha. e em afecto contido. as minhas mãos. abriram-se para pegar-te. nas pernas. e as enrolar à volta do meu tronco. solto.
juntos. apagaste a luz daquele quarto. iluminado por nós. e foste morar em mim.
v. de vazio.

9 Comments:
Os lábios que falam debaixo do mundo soletram lentamente o desejo. Sem que o digam, sem que o pintem do escuro da luz apagada e dos vultos que se formam entre as sombras e a lua. Confundem-se...
Não é vazio, é vasto, esse espaço de tempo entre a luz e o escuro.
Como sempre, João.
Elisabete Neves
olà! queria dizer que hei traduzido em italiano isto post no meu blog (PL) para a beleza das tuas palavras! parabéns!
tu conheces o italiano?
já não venho aqui a algum tempo. a tua escrita evoluiu. mesmo muito. cada vez me dá mais prazer ler-te.
acredita que com isto digo tudo.
Que palavras tão bonitas... Um grande beijinho
também gostei.
È a primeira vez que passo aqui " os dias das noites", e gostei especialmente do nome. Porque sem dúvida que é uma realidade...
Além disto, escreves muito bem......
Vou continuar a passar por cá...
Rita
... há vazios que preenchem assim! Lindo, João... bj
Muito bonito!
Parabéns.
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