Quinta-feira, Maio 03, 2007

v.

perguntei-te. se sabias secar feridas. tal qual o sol. faz secar a água nas pedras das ruas. e das varandas. disseste-me que era tarde para falarmos de coisas que obedecem à fé das mãos e das palavras. e viraste-te para o outro lado. onde os morcegos já teciam a escuridão.

assim. deixei-me ficar. a olhar o tecto negro que se compunham por cima do meu corpo. quente. ao lado do teu. a esmorecer na ventania do sono. pensei. como podiam as mãos dedicar-se ao luto de uma ferida e ao trânsito do sangue. parado. à espera. como podiam as palavras terminar a angústia da carne. e do ventre quase vermelho. quase negro. a sussurrar. a demolição do ar no peito. a respirar.

pedi então. que me deixasses olhar-te por dentro a dormir. disseste-me que não se pode espreitar para dentro do corpo. quando este é roubado e diluído num mar. disseste-me. que não se pode ver o que já não existe. o que partiu. o que foi desfeito. o que é salgado e se esvai na água e o que é tocado pela saudade. e pelo amor.

dentro do teu corpo. não existia nada. disseste-me. em voz escrita pelos lábios a falar debaixo do mundo. e a boca a beijar-me a face vermelha. e em afecto contido. as minhas mãos. abriram-se para pegar-te. nas pernas. e as enrolar à volta do meu tronco. solto.

juntos. apagaste a luz daquele quarto. iluminado por nós. e foste morar em mim.

v. de vazio.