Quarta-feira, Maio 25, 2011

.verdes anos.

lembro-me. das viagens pelo tejo. pelo rio amansado de silêncio. escuro. das manhãs. cujo sabor penetrava nas roupas. e o sal se misturava naquela brisa fria. gelada. por entre os ossos. que não conhecem malvadez. ou vício. e o mar da palha. por debaixo. dos pés do barco. vagaroso. e dos pés das gentes. de olhos fechados. à noite. já cansados.

e. eu. pequeno. de mãos dadas ao meu avô. imenso. quase parecendo um céu. ia com ele. aprender a trabalhar. sentar-me à máquina de escrever. e não ter força para carregar nas teclas. duras. que rasgavam o silêncio daquele corredor. de tacos. velhos. e a sentir o cheiro do papel. húmido. gasto. de letras e palavras sem entendimento. de cartas de marés. e de encomendas. vindas de um mundo por conhecer. de linhas encaixadas sobre outras linhas. desalinhadas. do mapa.

e as gentes. sempre apressadas sem chegar a lado algum. passavam no passeio. e fundiam-se na calçada. cinzenta. branca. suja. enrolada com o vento.

e aquela voz. estridente. nas tardes de domingo. no gira discos. arranhando o vinil. e as cordas. sussurrando contra os trastes. adormecendo. os olhos. e as mãos. as nossas mãos. gesticulando os acordes. falsos.

e nesse. momento. a viagem revelava-se. como um olhar pela janela. e a ponte. e a memória anexada ao amor. como uma carta escrita por dentro. pela alma. enraivecida. e com os pés do barco sobre o mar. sobre o tejo. sobre o sol nas águas. e a noite. nas ondas. e as ondas sobre a voz. e a solidão de ser. breve. e queimada como uma ferida.

e de ti. ficou. a voz. estridente das cordas. e as mãos sobre o corpo. e a respiração. dolorosa.


ficou. lisboa. ficou-me. a infância. ficou o meu avô.

ficou. a minha tristeza. e uma parte de todos os braços. que abraçam sós. o mar. e sonham como se não houvesse. morte que nos levasse a todos. para aquele lugar.

que tu. inventaste.