Quinta-feira, Junho 02, 2011

e vai.

descalço, com a terra a servir de luva nos pés.
e o chão cansado de ressuscitar tantos caminhos.

e sobre a pele, sobre o mundo, como um fado sem mar e sem xaile
daquela alma ausente do corpo.

e vai. tu.
como se fosses invisível, divisível, por entre os pequenos espaços.
entre as paredes de corpos e das gentes, das roupas que se encolhem.
da sola dos teus pés que se enfia por debaixo das pedras do chão.

e vai. tu.
como se a rua e a multidão, e os prédios, e o mar,
e a ponte ao longe fossem desaparecer
e entornar-se como água sobre a memória.

e vai. tu.
como se a voz por dentro fosse muda,
não se ouvisse, não se dissesse - nem uma só palavra.


e vai embalado. pelo sorriso que não sabe mentir.
como se fosses o nome de todas as pessoas, de todos os rostos.
a cor de todos os olhos
e o negro da noite.


e vai, como se fosses resgatar a onda ao mar, à lucidez e à luz
em que tu, já não existes.


maio.2010.

Quarta-feira, Maio 25, 2011

.verdes anos.

lembro-me. das viagens pelo tejo. pelo rio amansado de silêncio. escuro. das manhãs. cujo sabor penetrava nas roupas. e o sal se misturava naquela brisa fria. gelada. por entre os ossos. que não conhecem malvadez. ou vício. e o mar da palha. por debaixo. dos pés do barco. vagaroso. e dos pés das gentes. de olhos fechados. à noite. já cansados.

e. eu. pequeno. de mãos dadas ao meu avô. imenso. quase parecendo um céu. ia com ele. aprender a trabalhar. sentar-me à máquina de escrever. e não ter força para carregar nas teclas. duras. que rasgavam o silêncio daquele corredor. de tacos. velhos. e a sentir o cheiro do papel. húmido. gasto. de letras e palavras sem entendimento. de cartas de marés. e de encomendas. vindas de um mundo por conhecer. de linhas encaixadas sobre outras linhas. desalinhadas. do mapa.

e as gentes. sempre apressadas sem chegar a lado algum. passavam no passeio. e fundiam-se na calçada. cinzenta. branca. suja. enrolada com o vento.

e aquela voz. estridente. nas tardes de domingo. no gira discos. arranhando o vinil. e as cordas. sussurrando contra os trastes. adormecendo. os olhos. e as mãos. as nossas mãos. gesticulando os acordes. falsos.

e nesse. momento. a viagem revelava-se. como um olhar pela janela. e a ponte. e a memória anexada ao amor. como uma carta escrita por dentro. pela alma. enraivecida. e com os pés do barco sobre o mar. sobre o tejo. sobre o sol nas águas. e a noite. nas ondas. e as ondas sobre a voz. e a solidão de ser. breve. e queimada como uma ferida.

e de ti. ficou. a voz. estridente das cordas. e as mãos sobre o corpo. e a respiração. dolorosa.


ficou. lisboa. ficou-me. a infância. ficou o meu avô.

ficou. a minha tristeza. e uma parte de todos os braços. que abraçam sós. o mar. e sonham como se não houvesse. morte que nos levasse a todos. para aquele lugar.

que tu. inventaste.

Sexta-feira, Dezembro 24, 2010

i.r.reparável.

vivia atrasado ao tempo. aos dias. às noites. longas. que suspendiam a luz. por entre os cândeeiros da rua. e a rua. gemia. pessoas. a entrar e a sair das casas. o frio. colhia-lhes nos rostos. o calor do sangue. que ainda nos corre no corpo. era tudo intocável. o motor. emperrado. cansado. velho e amargo. que faz brilhar os sorrisos nos lábios. de todos nós. moía palavras doces e gestos acabados de fazer. beijos a marcar as faces e cabelos a soltarem-se ao vento. e tudo se via. e se olhava e lia. os cartazes nas paredes. as luzes nas janelas. as poças de chuva nos buracos da estrada. os carros a empurrarem-se. até ao fim. que não acaba.

aquele fim. onde quando a luz se fecha. e a penumbra dorme. sobre nós. aquele frio. derramado e vivo. que nunca se acaba aqui. onde as nossas mãos se fecham uma na outra. e tudo. é irreparável. porque nunca se estragou. nem por ausência. nem por vontade.

podia. tocar o fundo de tudo o que se esconde por debaixo dos meus pés. e saberia para sempre que nunca poderia reparar o tempo. que não te vi. que não te beijei. que não te olhei. que não te toquei. que não te bebi. que não te cuidei. que não te ri. que não te levei a ver esta rua. e te encolhi nos meus braços.

um abraço.

um santo. natal. a todos.

Sexta-feira, Março 19, 2010

por acabar.

então. o que passou ontem pela noite atrasada. um comboio desenfreado. um comboio com a linha a fugir e a acabar. sem rodas e sem pernas. sem pessoas. e cinzento como a penumbra de uma noite. quase roubada. quase acabada. então. o que se passou. quando acordaste sozinha naquela casa sem paredes. sem janelas. sem portas e por acabar. faltava-lhe a cor. a luz. o ar. e a saudade. faltava-lhe quase tudo. então. o que se passou com a voz. quando esta não conseguiu fugir ao soluço. à malícia do descontentamento. ao ouvido. à palavra e ao lamento. o discurso que ficou por acabar. então. o que se passou. com os teus cabelos. agora. secos. agora. soltos. agora. afogados nos meus lábios. nas minhas mãos. embarassados. então. o que se passou. com a multidão que ignorou o semáforo entregue dentro do coração da cidade. da estrada que vai até ao fim. do. mundo. e volta do fim.do.mundo. até aos pés da multidão. a respirar o frio. e a solidão. então. o que se passou. ao cansaço das pernas. que já não correm. que já não andam com os passos firmes e largos. largos e firmes. agora abanam. agora resvalam nas pedras do passeio. e já não caminham. então. o que se passou com o coração. que acelerou na linha encarnada do lápis. vermelho. enquanto desenhavas dragões de fogo. e céus. carregados de nuvens e pássaros. embalados na ventania. então. o que se passou com o manifesto. que dizia. que afirmava. que sugeria. que manifestava. que engolia. que embarassava. que lamentava. então. o que se passou. com as lágrimas. e o choro. com as mãos. a tapar. a boca. a corrigir o sorriso. então. o que se passou com a culpa. para onde foi. com quem ficou. nas mãos. nos olhos. nas palavras. por dizer. quem as ficou de falar. sobre a culpa. então. o que se passou. durante a noite. porque de dia. dormia. então. e os dias. e as noites. para que servem. senão para se viver e morrer. e para nada mais. tão pouco. deveria haver mais coisas para fazer. viver e morrer. é. tão. pouco.

Segunda-feira, Março 15, 2010

vago. ao lado.

roubei-te aos bocados. eras corpo a mais. dentro de duas mãos. eras corpo a mais. e lábios a mais. e olhos a mais. e beijos a mais. eras tanto. para duas mãos tão pequenas. eras mais que um sol. nem mar. nem terra. chegavam. eras o papel da carta demorada ler. e a parte que enrola na ponta dos dedos. e que engasga na forma das letras. os olhos e garganta seca. eras mais do que as velas. de um moinho também. a girar. eras tanto. e por isso. fui trazendo um bocado de ti. cada vez. que te via. eras tanto para duas mãos tão pequenas. eras um abraço só. e um abraço carregado. um ombro fechado num rosto. e um rosto fechado sobre o braço. imóvel. hoje trouxe o cantinho de ti. reservado à luz. amanhã. trago a peça. que permite encontrar a tua voz. encolhida quando estás quase a dormir. e depois. depois logo se vê. as mãos não chegam para tanto de ti. se olhasse o céu. saberia como te encontrar em cada parte branca. em cada pássaro. em cada estrela. em cada parte somada de chuva. e mesmo assim. não existem tantos pássaros no céu. tantas nuvens a escorrer da tela e estrelas. são o plural do que ainda não trouxe ti. as luzes fundidas do mundo. que não chegam para te percorrer. o corpo. amassado ao meu desnorte. em te contar. em te medir. e partir e subtrair e resgatar. ao mar. e à terra. ao céu. e ao que sobra de tantas letras e palavras por escrever. sobre ti.

Domingo, Dezembro 14, 2008

há. (incompleto. e resignado).

há de noite uma voz que diz baixinho o teu nome. e com ela. deus consegue encontrar o lugar certo das coisas. uma tempestade. entornando-se sobre o chão. o chão engasgado pela tormenta. uma mão a balançar-se num adeus. e a chuva castigando o corpo a despedir-se. uma luz azul. num relâmpago a fugir de ti. e um momento cansado a esconder-se do frio que sai da tua boca. a dizer o meu nome. há de noite. uma voz que diz baixinho o teu nome. e com ela. deus consegue encontrar o lugar certo das coisas. um pedaço de papel rascunhado sobre o nosso encontro. e um comboio a escapar-se no horizonte. um sol despegado a colorir o céu. tardio. e a imensidão do céu. derramada sobre o lastro daquele comboio. um passageiro a roubar as fagulhas de uma vida por inteiro. envolvido. na bruma da velocidade discreta do caminho. que sabe que nasceu de dentro de uma barriga quente. e de um vaso de terra. em carne feita. e não sabe mais nada. sobre deus. há um silêncio. e sobre deus. quase tudo anda perdido nas mãos. um mar a comer a terra. e a terra engolida por um mar clandestino. há de noite. uma voz que diz baixinho o teu nome. e com ela. deus consegue encontrar o lugar certo das coisas. onde os teus pés assentam. na argila que se fez vaso e da fagulha. que se fez fogueira. que ilumina todos os ruídos vindos do fundo da terra. abandonada. e onde. hoje. crescem flores. ponto. reticências. levo-te uma. ponto. reticências. para pôres no teu cabelo escurecido pela sombra das minhas mãos. hoje. que te beijo na fronte e sabes ao sal. que o mar deixou no vento. sabes. a amor. a arder no coração. sabes ao acordeon do início da nossa música. e ao acorde gasto do mi. quando a canção diz. aspas. amor. devias ter vindo. aspas. sabes ao beijo da fotografia. à noite na praia a ver as pessoas a passar. e o sol a pôr-se. para lá de tudo. voltamos lá todos os anos. voltamos lá sempre. há de noite uma voz que diz baixinho o teu nome. e com ela deus consegue encontrar o lugar certo das coisas. e um silêncio a ferver.

Quinta-feira, Outubro 23, 2008

sem nome e póstumo.

pegou-lhe na mão. estava insaciável a contar os passos do andar. os pés calcavam a terra à procura de luz. e na terra não há luz. quando um diabo dorme a morder-lhe o coração. engasgavam-se no caminho. com a mão. na mão dura. e apressada. que com o tempo. já não se via mão alguma. apenas um traço.

um traço. a cortar o horizonte. do lado de onde o sol se põe e não se ouve o silêncio. apenas o interior do coração que dorme na terra.

e as árvores que dormem no vento. trazem as palavras cinzentas nos ramos. e as folhas que caem. falam de um traço violento. a dividir o horizonte. a quebrar o silêncio. a quebrar a terra. e a acordar um diabo que dorme. e que não sabe a cor de um coração dentro de um vaso a fazer crescer uma flor.

(não crescem flores quando a terra gela.)